Prólogo: Underground

"Pois na ingenuidade da coragem, se cria vantagem."

    Em algum lugar onde a escuridão se faz presente, ecoa - se pelo ar o barulho de passos submersos pela água, que provocam um som monótono e estranhamente tranquilo a quem, talvez, esteja por perto.
        
    Águas essas tão vermelhas que fazem surgir a dúvida de sua composição, e que de forma imprevisível, percorrem feixes de luz; numa tentativa falha de tentar iluminar o misterioso fundo arenoso.
        
    O jovem que anda por esta penumbra possui uma ingênua coragem que lhe dá esperanças ao ver, logo adiante, uma fonte de luz; talvez essa pudesse ser a "Luz no fim do Túnel", entusiasmando o garoto a continuar mais rápido ainda em direção a maré cintilante.
        
    Chegou lá, e refletiu em seus olhos claros a visão da grande gruta em que se encontrava. Alguns quilômetros adiante, de forma majestosa, situava - se uma espécie de templo, rodeado por imensas rochas pontiagudas que lembravam uma especie de muralha, elevando - o  do nível das águas. A luz que iluminava os arredores era proveniente das tochas da construção, onde o fogo se moldava, livre e estável.
        
    Faíscas, levadas por uma corrente de ar inesperada, sobrevoavam os fios de cabelo dourados do garoto, que agora seguia firmemente em direção a seu novo objetivo em meio aos feixes luminosos, que neste lugar eram muito mais presentes. Vestia uma camisa preta, sem mangas e que, como as calças, aparentava já ter sido usada por um bom tempo, tendo o número "55" estampado na parte de trás, e, de tamanho menor, no lado direito da frente - parte a qual também possuía algumas manchas mais escuras, provavelmente por conta do sangue que escorria pelo corpo do rapaz, deixando um rastro que não se misturava com o restante da água -.
        
    Conforme andava, começava a se tornar mais frequente a presença de correntes de diferentes tamanhos em meio às águas; pouco a pouco, tais correntes iam se prendendo a suas pernas e braços ensanguentados, dificultando cada vez mais de se chegar ao destino. E num determinado momento, o jovem parou.
        
    - Sabe, eu já estou de saco cheio de correntes… É mais fácil você aparecer de uma vez do que ficar dificultando.
        
    Tais palavras ecoaram pela imensa gruta, palavras que de alguma forma, fizeram sentido.
        
    Assim, as correntes já manchadas pelo sangue começaram a vibrar e se mover, desprendendo - se do corpo do jovem, que por sua vez, encarava fixamente seis globos amarelos que o encaravam de volta da profunda vermelhidão. Os globos lentamente começaram a se erguer em direção a superfície, rompendo a película aquosa e revelando os olhos ameaçadores da criatura que até então estava escondida.
        
    Era enorme e possuía tanto características de um cão como também de uma serpente, mas que como nenhuma das duas opções, possuía três cabeças ferozes que pareciam poder aniquilar qualquer coisa que quisessem. Sua pele era coberta por escamas escuras, que pareciam apenas falhar em algumas cicatrizes; uma delas bem exposta no peitoral da criatura. As correntes mencionadas anteriormente eram presas em diferentes locais de seu corpo, mas principalmente nas grossas coleiras de metal que havia em cada um dos pescoços.
        
    Dentre as três cabeças, a da esquerda parecia ser a mais brutal, rosnando e salivando sem parar; a da direita sorria, mostrando suas presas brutalmente colossais; e por último, a do centro apenas observava a situação, gerando uma sensação de estranheza e medo a quem fitasse aquelas amedrontadoras pupilas verticais. Mas este não era o caso do jovem que já havia chegado até aqui, parecia que, na verdade, já estava familiarizado com aquilo.
        
    - Já faz algum tempo… - Disse a cabeça central da criatura, dando um leve sorriso.
        
    Apesar da diferença de tamanho e aparente diferença de força, qualquer um que estivesse por lá não veria desigualdade em nenhum dos lados, na verdade, era possível notar uma breve semelhança entre os dois: pareciam dois monstros.
        
    Mas talvez seja demasiadamente cedo para falar sobre isso.